
Multitudes reúne um conjunto de fotografias extraídas do arquivo de Manuel Sardinha, datado entre 1983 e 2015. À exceção de uma imagem digital e a cores, todas nascem da passagem do negativo analógico ao digital, e é nessa transição que a exposição se joga: lugares e figuras que o tempo foi diluindo, e que a imagem devolve agora como rasto.
As imagens percorrem muitas paisagens e lugares distintos, de Arraiolos a Coruche, de Leiria a Lisboa, de Londres a Maçal do Chão, da Pedra do Ouro a Pedrógão, da Polvoeira a Sagres, da Terrugem a Vila Viçosa. A ordem cronológica não é decisiva na seleção. O que une estas fotografias é o modo como o tempo de cada lugar irrompe no presente como testemunho do que já foi, numa aceção mais poética do que documental.
O título aponta para essa multiplicidade. A identidade dos seres retratados é vaga e móvel: um vulto de bicicleta, uma figura que caminha encurvada, uns calções de praia em primeiro plano. O gesto está lá, mas a figura apaga-se ou dilui-se no mesmo movimento que a define. É essa sensação de passagem e de apagamento que atravessa o conjunto.
O preto e branco não é aqui um efeito, é uma linguagem. O domínio clássico da técnica revela-se no trabalho da linha, da mancha e da textura, e no modo como as figuras se incorporam no campo de forças da perspetiva. Em imagens como Maçal do Chão 1989, Vila Viçosa 1991 ou Terrugem 1996, uma linha curvilínea conduz o olhar e impõe uma demora, como se a imensidão só se deixasse ver devagar.
A única fotografia digital e a cores, de 2015, quebra deliberadamente essa cadência. Introduz uma aplanação de qualidade pictórica e marca a transição entre eras, deixando em aberto se o que assistimos é ao apagar-se de uma história ou ao encantamento do processo que liga o infinito das multitudes a preto e branco a um depois a cores.
Texto: Ana F. Cravo. Comissariado: Ana Cravo e Carlos Filipe.
Catálogo da exposição (PDF) ↗Avenida Duques de Bragança, Nº 4 · 7160-209 Vila Viçosa Portugal
Segunda a sexta 09:00 — 18:00
Entrada livre